Antes de a palavra «vegan» existir
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A palavra é mais nova do que muitos dos nossos avós. Em novembro de 1944, Donald Watson reuniu-se com outros cinco vegetarianos que não consumiam lácteos para fundar uma sociedade, e precisavam de um nome para si. Descartaram «dairyban», «vitan» e «benevore» antes de escolherem vegan — nas palavras de Watson, «as três primeiras e as duas últimas letras de “vegetarian”».
Mas a ideia não é nem tão nova como a palavra nem tão inglesa. Basta olhar para algumas tradições fora do Ocidente para o ver. Muito antes de 1944, poetas, imperadores, monges e cozinheiros da Ásia, do Médio Oriente e de África tinham defendido refeições sem animais, escrito leis sobre elas e inventado um nome para elas.
Uma nota honesta antes de começar. Não eram todas veganas no sentido que damos à palavra: umas nasciam da compaixão, outras da pureza, outras da devoção. Às vezes a razão era a crença na metempsicose, a passagem da alma de um corpo para outro, como entre os órficos da Grécia antiga. Reivindicá-las todas como «veganas antes do veganismo» seria uma forma de apropriação ou, pior, um anacronismo puro e simples, sem ligação real com o que queremos dizer com essa palavra. O que têm em comum é o prato — e, com surpreendente frequência, parte do raciocínio.

Um nome para isso, noutras línguas
O inglês chegou tarde a este vocabulário. Várias línguas já tinham uma palavra para uma refeição sem animais, e algumas ainda a põem na ementa.
| Palavra | Onde | O que deixa de fora |
|---|---|---|
| 素 (sù), 齋 (zhāi) | China | Carne e peixe — e, na prática budista, também o alho, a cebola e as plantas vizinhas de odor forte |
| 精進 (shōjin) | Japão | Carne e peixe por regra, e também cebola, alho-francês e alho |
| เจ (jay) | Tailândia | Carne, lácteos, alho e cebola |
| chay | Vietname | Carne, peixe, ovos e lácteos, na cozinha budista |
| ጾም (tsom) | Etiópia | Todos os alimentos de origem animal, nos dias de jejum |
Nenhuma destas palavras é um sinónimo exato de vegan, e as razões por trás delas são religiosas tantas vezes como éticas. Mas várias são muitos séculos mais antigas do que a palavra inglesa. O jay tailandês chegou com as comunidades chinesas — vem do chinês 齋 — e o chay vietnamita ainda se come no primeiro e no décimo quinto dia do mês lunar. O chinês até reconverteu uma palavra antiga pelo caminho: 葷 (hūn), que hoje significa pratos de carne, designava originalmente as plantas de odor forte que as regras budistas e taoístas enumeravam, ao lado da carne e do vinho, entre as coisas a evitar.
Índia: os argumentos mais antigos, em verso
Alguns dos argumentos mais antigos que chegaram até nós para deixar os animais em paz são indianos. Uma das mais antigas escrituras jainistas, o Ācārāṅga Sūtra, resume tudo numa frase que nunca precisou de ser atualizada: «Todos os seres amam a vida, gostam do prazer, odeiam a dor, fogem da destruição, querem a vida, anseiam por viver. Para todos, a vida é querida.»
Vem depois o Tirukkuṛaḷ, o grande livro tâmil de ética, que os estudiosos situam em algum ponto entre os últimos séculos antes da nossa era e o século V da nossa era. Dedica um capítulo inteiro de dez dísticos à abstenção de carne, e cada um deles argumenta contra. Um põe a abstenção acima do rito religioso: «Abster-se de matar e de comer seres vivos é melhor do que celebrar mil sacrifícios no fogo sacrificial.» Outro responde a uma desculpa bem conhecida — que foi outra pessoa que matou — observando que ninguém venderia carne se ninguém a quisesse comer. E um vai direto ao assunto:
«Se o homem conseguisse ao menos dar-se conta da agonia e da dor que outros seres vivos sofrem, não desejaria comer carne.»
Tirukkuṛaḷ 257, na tradução de V. V. S. Aiyar

China: um sutra, um imperador e uma cozinha
O vegetarianismo budista chinês assenta numa única linha do Mahāparinirvāṇa Sūtra, traduzido para chinês no início do século V: 夫食肉者,斷大慈種 — «quem come carne corta a semente da grande compaixão».
Mesmo assim, foi preciso um imperador para fazer disso a regra. A disciplina monástica budista dos primeiros tempos nunca proibiu a carne por completo: os monges viviam de esmolas e podiam comer a carne que recebiam, desde que não tivessem visto, ouvido nem suspeitado que o animal havia sido morto para eles — uma regra que muitos monges do Sri Lanka, do Sudeste Asiático e do Tibete seguem ainda. No final da década de 510, o imperador Wu de Liang reuniu bem mais de mil monges e monjas budistas e disse-lhes que abandonassem a carne e o vinho. Objetaram, com alguma razão, que o código monástico não proibia a carne. Ele respondeu com os sutras, convocou mais assembleias e ganhou. Os mosteiros chineses são vegetarianos desde então.
O taoísmo tinha regras próprias. Um texto provavelmente escrito no século IV já proíbe cozinhar os seis animais domésticos, e no século VIII os regulamentos taoístas proibiam o vinho, a carne e os cinco legumes de odor forte. A ordem monástica Quanzhen, cujo Templo da Nuvem Branca em Pequim é atualmente a sede da Associação Taoísta Chinesa, mantém vegetarianos os seus monges e monjas até hoje.
O que veio depois foi uma cozinha, e dois dos seus alimentos de base foram invenções chinesas. A lenda atribui o tofu, dòufu (豆腐), «feijões coalhados», a Liu An, um príncipe de Huainan da dinastia Han, na atual província de Anhui, no século II antes da nossa era. A primeira menção escrita é do século X, e o tofu popularizou-se sob a dinastia Song (960–1279). O glúten de trigo — miànjīn (麵筋) em chinês, seitan para quem compra no Ocidente, um nome criado no Japão em 1961 — está documentado na China desde o século VI: a menção mais antiga que se costuma citar está no Qimin Yaoshu, uma enciclopédia agrícola de Jia Sixie, um funcionário de Shandong. Os budistas adotaram-no como substituto da carne.
Na dinastia Song, há mil anos, as cidades chinesas tinham restaurantes vegetarianos, e as suas cozinhas serviam falso ganso assado e outras imitações de carne feitas com plantas — dos primeiros substitutos da carne de que há registo.
Japão: um imperador, um cozinheiro e um contador de histórias
Em 675, o imperador Tenmu proibiu comer vaca, cavalo, cão, galinha e macaco durante os meses de cultivo, de abril a setembro. Não era vegetarianismo — abrangia certos animais em certos meses —, mas iniciou um recuo da carne na vida pública japonesa que durou, de forma irregular, até 1872, quando o imperador comeu carne no Ano Novo e o costume começou a desaparecer.
Os templos budistas foram muito mais longe. A sua cozinha, o shōjin ryōri, é vegetariana por regra e deixa de fora também a cebola, o alho-francês e o alho. O seu texto clássico é um manual de cozinha: em 1237 o mestre zen Dōgen escreveu o Tenzo Kyōkun, «Instruções para o cozinheiro», onde cozinhar com atenção é tratado como parte da prática.
Kenji Miyazawa (1896–1933) — poeta, budista e vegetariano — escreveu um conto cómico, «A festa vegetariana», passado num congresso vegetariano internacional. Os delegados dividem-se numa ala da «simpatia», que se abstém por compaixão, e numa ala da «prevenção», que o faz pela saúde, enquanto os seus adversários atacam com argumentos tirados da teoria da população, da psicologia animal e da anatomia comparada. Na reviravolta final, os adversários revelam-se atores contratados. Os argumentos soarão familiares a quem já tenha comido vegano num almoço de família.
Médio Oriente: um poeta, um processo e um fim
Abū al-ʿAlāʾ al-Maʿarrī (973–1057), o poeta cego sírio, abandonou a carne, o peixe, o leite, os ovos e o mel por volta dos trinta anos — vegano em tudo menos na palavra. Pô-lo em verso: «Não comas injustamente o que a água entregou, e não desejes como alimento a carne de animais abatidos.» O mesmo poema poupa depois o leite que as mães destinavam às suas crias, os ovos de aves desprevenidas e o mel que as abelhas juntaram para si e não para nós.
Quando um funcionário fatímida do Cairo lhe escreveu desafiando-o a justificar-se, al-Maʿarrī respondeu. A troca conservou-se, e o erudito D. S. Margoliouth publicou-a em inglês em 1902.
Ainda antes, na Baçorá do século X, os eruditos anónimos conhecidos como os Irmãos da Pureza escreveram uma fábula em que os animais levam a humanidade a tribunal diante do rei dos génios. O burro, o cavalo e o carneiro testemunham sobre cargas, pancadas e crias degoladas. Os humanos ganham por pouco — com o argumento de que a sua espécie pode dar santos —, e o livro deixa claro que isso não autoriza de modo algum a crueldade.
Etiópia: o jejum que acaba por ser vegano
Durante mais de 200 dias por ano, os membros praticantes da Igreja Ortodoxa Etíope — que reúne mais de 40 por cento dos etíopes — jejuam: sem carne, sem lácteos, sem ovos. A mesa de jejum — lentilhas, guisado de grão-de-bico e verduras, tudo servido sobre injera — é vegetal por definição.

É aqui que a nota honesta mais conta. Como diz um estudo recente, «o veganismo nomeia o que a comida é, enquanto tsom nomeia o que a comida faz». O tsom (ጾም) é um jejum espiritual, uma disciplina de si, não uma posição ética sobre os animais. É uma tradição com que aprender, não uma a reivindicar.
O que nos dizem as palavras antigas
Postas umas ao lado das outras, estas tradições discordam em quase tudo: os deuses, o renascimento, a pureza, os reis. Chegaram ao mesmo prato por caminhos diferentes — o não fazer dano na Índia, a compaixão no budismo chinês, a piedade num poeta sírio, a disciplina num jejum etíope e, noutras tradições, a crença na transmigração das almas.
O nosso próprio nome, NAE, significa No Animal Exploitation, «nenhuma exploração animal» — uma maneira moderna de dizer o que alguns dísticos em tâmil, um sutra chinês e um poeta cego sírio disseram muito antes de nós. Nas próximas semanas voltaremos à Grécia e a Roma (os órficos, os pitagóricos, Lucrécio, Séneca e outros), e depois avançaremos para o que a literatura moderna fez da pergunta.