What We Know, What We Owe - Ethics

O que sabemos, o que devemos

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Há uma contradição com a qual a maioria de nós vive bastante confortavelmente. Fazemos festas a um cão e comemos um porco; choramos um gato e vestimos uma vaca. Tratamos alguns animais como alguém e outros como alguma coisa, e raramente perguntamos o que justifica realmente a linha que os separa.

A resposta honesta é, quase sempre, a proximidade. Estendemos a nossa consideração aos animais que por acaso conhecemos, amamos, de quem gostamos e de quem cuidamos, e sobre os restantes não pensamos demasiado. É compreensível, mas não é razoável nem a única forma natural de sentir — e quando percebemos a nossa própria cegueira, abre-se dentro de nós uma fenda emocional.

Duas maneiras muito diferentes de pensar os animais — uma vinda da ciência, outra da ética — sugerem ambas que essa linha é mais frágil do que os nossos hábitos supõem. Nenhuma basta por si só. Juntas, apontam para um lugar mais coerente.


O que sabemos

Durante grande parte da história moderna, uma certa cautela — por vezes um certo dogma — sustentou que não podíamos atribuir mente aos animais. Dizer que uma ovelha reconhece um rosto, que um peixe aprende com o vizinho ou que uma ave planeia para amanhã era projetar fantasia humana sobre maquinaria biológica, ou sobre uma criatura determinada pelo instinto. Mas essa visão desmoronou-se em silêncio sob o peso das provas.

Ficou demonstrado que as ovelhas retêm dezenas de rostos individuais e ainda os reconhecem passado um ano de separação. Pombos treinados com quadros aprenderam a ordená-los por autor — e confundiram precisamente aqueles que confunde um aluno de arte do primeiro ano. Um corvo, sem ter visto qualquer exemplo, dobrou um pedaço direito de arame até formar um gancho para alcançar comida. Uns gaios alimentados num compartimento e não noutro começaram a armazenar provisões para a manhã exatamente onde o pequeno-almoço não iria chegar — planeavam para um amanhã que evidentemente conseguiam imaginar.

Peixes de aquacultura criados com pellets vermelhos e depois libertados tentaram comer seixos que se lhes assemelhavam; alguns morreram de fome, outros sobreviveram observando peixes mais experientes e revendo aquilo que julgavam saber sobre o que conta como comida. O caso talvez mais eloquente seja o de um castor cuja barragem cedeu: remendou a brecha com erva e lama — materiais normalmente guardados para impermeabilizar — porque reunir ramos adequados teria demorado demasiado, e regressou na manhã seguinte com ramos que entretanto tinha cortado e preparado, para fazer o trabalho como deve ser. Para o conseguir, teve de levar o problema consigo pela noite fora.

Nada disto é um truque de salão. Em conjunto, são seres que sustentam crenças e as revêem quando o mundo as desmente; que se lembram de indivíduos concretos; que antecipam; que leem o que os outros sabem; que ponderam opções e mudam de rumo. Ou seja: têm intenções, hábitos flexíveis aprendidos no contexto e outras capacidades adquiridas. Querem coisas. Desafio-te a explicar esses comportamentos a partir da perspetiva da máquina ou do instinto.

O que as provas mostram

Rever crenças — sustentam crenças e mudam-nas quando o mundo as desmente.
Memória de indivíduos — rostos concretos, reconhecidos passado um ano de separação.
Planear — agir agora para uma necessidade que ainda não chegou.
Ler os outros — acompanhar o que outro sabe, e por vezes enganá-lo.
Escolher — ponderar opções e mudar de rumo quando a situação se altera.

A vontade, e não apenas a dor

Quase todo o nosso pensamento quotidiano sobre os animais assenta no sofrimento, como se fossem capazes apenas de movimento e como se a única pergunta digna de debate fosse saber se também conseguem sofrer — e nada para além disso estivesse em discussão. E uma vez admitido que sofrem, o raciocínio passa a ser: se não dói, não houve dano — e é assim que uma expressão como «abate humanitário» acaba por soar a solução em vez de a mudança de assunto.

Mas se um animal é um ser que quer coisas, o sofrimento não é a única coisa em jogo. Pôr fim a uma vida assim sem dor, ou tirar-lhe o leite, os ovos, o sangue, uma pata ou o que quer que seja, continua a ser tirar-lhe algo que não entrega voluntariamente — e voluntariamente é a palavra que importa: se lhe tirarmos a vida, tiramos-lhe a possibilidade de voltar a agir segundo qualquer um desses desejos. Não o terror de morrer — um animal pode tê-lo ou não —, mas o encerramento permanente de uma vontade. E os projetos que assim se fecham são modestos: ir para onde lhe apetece, estar entre os seus, criar as crias, comer e descansar e seguir em frente. A maioria dos nossos não é mais grandiosa. Não pedimos a uma pessoa que justifique a sua vida pela ambição dos seus planos antes de lhe reconhecermos o direito de continuar a fazê-los, nem aceitamos usar uma pessoa apenas porque foi anestesiada ou deixada inconsciente.

Um animal não precisa de ter um conceito muito complexo da morte para que a sua morte lhe tire alguma coisa.


Porque saber não basta

E, no entanto, nada disto obriga por si só quem quer que seja a coisa alguma. É esse o problema silencioso no coração do argumento científico: um facto sobre o que um animal é não entrega uma conclusão sobre como o devemos tratar. «O porco é inteligente e quer viver» e «não devíamos criar porcos» são tipos diferentes de enunciado, e nenhuma quantidade de dados adicionais fecha o fosso entre eles — como Hume mostrou há séculos (nem a causalidade nem a moral decorrem dos factos).

Pior ainda: o conhecimento perseguido num certo espírito pode apagar a própria reação que deveria provocar. Existe uma forma de estudar o mundo que faz do distanciamento frio uma virtude e trata qualquer sentimento pelo objeto de estudo como uma ameaça ao rigor. Praticada assim, a descoberta de que os animais são conscientes torna-se mais uma entrada no catálogo: um facto para arquivar e, quando convém, explorar. Saber que uma criatura sofre e quer, e não fazer nada com esse saber, não é uma postura científica neutra (num sentido mais amplo do que o estreito que os sacerdotes do conhecimento moderno costumam usar). É um fracasso de outra ordem.


O que nos liga

É preciso, então, algo mais do que informação — e aqui uma tradição diferente torna-se essencial. Contra a imagem da moral como aplicação de regras universais abstratas a partir de uma posição de neutralidade estudada, há um longo argumento segundo o qual as nossas reações morais começam, na verdade, num lugar muito mais concreto: na atenção a um outro particular (um outro singular), numa relação cuja situação captámos verdadeiramente.

Isto devolve ao sentimento o seu devido lugar — não como uma fraqueza que turva o juízo, mas como aquilo que nos faz reagir sequer. A razão pode dizer-nos o que se passa; é a nossa capacidade de sermos afetados por outro que transforma «esta criatura sofre» em «eu não vou fazer isto». O cuidado, neste sentido, não é sentimentalismo. É uma maneira de conhecer alguém que presta atenção a quem ele é concretamente, em vez de o arrumar debaixo de uma categoria.


Porque o cuidado também não basta

Mas o cuidado tem um limite, e é a imagem espelhada do outro. O cuidado é próximo, e a proximidade é parcial. Se a consideração moral só corre para os seres com quem por acaso temos uma relação, chegará sempre ao cão do sofá e parará à porta do estábulo. É precisamente a incoerência com que começámos: ternura verdadeira pelos animais que temos por perto, enquanto aqueles que nunca conhecemos são tratados como abastecimento.

Deixado assim, o cuidado não consegue responder à pergunta que mais importa: quem está dentro do círculo, e porquê. Uma moral construída sobre a proximidade traça a sua fronteira onde as nossas simpatias por acaso se desvanecem, o que não é fronteira nenhuma. Se a nossa ética se constrói apenas sobre abstrações forjadas pela nossa imaginação ou sobre as simpatias pelos mais próximos, o hábito limitar-se-á a seguir o carreiro estreito que já gastámos.

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O cuidado alcança os animais que conhecemos. É o saber que empurra a fronteira para fora.


A atenção, onde os dois se encontram

Duas investigadoras podem estudar o mesmo animal. Uma trabalha de forma invasiva e trata a criatura como aparelho. A outra passa anos em algo muito mais próximo de uma vida partilhada — uma investigadora assim viveu duas décadas ao lado de um papagaio cujas capacidades documentou — e acaba por conhecer o animal como indivíduo. O que impressiona é que a segunda abordagem não custa rigor. Muitas vezes rende mais. A empatia não é um deslize de método; é um instrumento.

O que sugere que as duas tradições estão menos separadas do que parecem. Ambas são, no fundo, formas de atenção a um outro: uma insiste em que essa atenção seja disciplinada e fundada em provas; a outra, em que responda a quem está realmente ali. O distanciamento frio não é mais conhecimento. É menos.


Saber e cuidar, juntos

O caminho não passa, portanto, por escolher. Passa por deixar que cada um repare o que falta ao outro — com uma terceira ideia, a responsabilidade, que leva o resultado mais longe do que qualquer um deles alcança sozinho. Uma singularidade constrói-se longe da abordagem particular-universal de um gabinete ou de uma biblioteca, longe dos sentimentos pelo ser mais próximo, a não ser que se seja quase um psicopata, e os hábitos que desenvolvemos fazem parte dessa singularidade — que está no curso da ação, e não apenas no pensar ou no sentir.

O cuidado fornece o dever

Os factos não geram obrigações; a atenção a um ser concreto gera. É daí que vem realmente o puxão moral.

O saber fornece o alcance

Assim que percebes que o peixe, a galinha e a vaca são seres que querem, não menos do que o cão que amas, perdes a desculpa para parares onde as tuas simpatias por acaso terminam. As provas corrigem a parcialidade do sentimento.

A responsabilidade fornece a extensão

Uma relação com um animal é real, mas pequena. A responsabilidade pega no que a proximidade ensina e estende-o aos animais que nunca conheceremos — os que estão por trás da nossa comida, da nossa roupa, dos nossos hábitos —, levando o laço concreto para fora sem o deixar descolar de tudo o que é real.

Os hábitos desenvolvem-se enquanto tomamos tudo isto em conjunto, entrelaçado, como um todo. E os hábitos são movimento: movem-nos numa direção, a par das nossas decisões mais espontâneas, sentidas ou deliberadas.

CUIDADOo dever+SABERo alcanceRESPONSABILIDADEa extensão

Nenhum basta sozinho. Juntos, chegam para além dos animais que por acaso conhecemos.

O que daqui decorre não é um slogan, mas uma disposição: ver os animais como seres com vida e vontade próprias, que por isso não deveriam ser reduzidos a material — e aceitar que vê-lo traz obrigações que vão muito para além das criaturas que por acaso amamos.


De uma ideia a uma escolha

É este, no fim, o pensamento que está por baixo de uma escolha como o veganismo, e por baixo de uma empresa como a nossa. O couro é o ponto em que o argumento deixa de ser abstrato: uma pele é o que resta de um ser que tinha para onde ir. Fazer sapatos sem materiais de origem animal é uma forma pequena e concreta de levar isso a sério — de recusar tratar alguém como abastecimento, por muito comum que esse tratamento se tenha tornado.

Não é uma pretensão de perfeição moral, e um par de sapatos não resolve nenhuma questão filosófica. É uma tentativa de deixar que aquilo que sabemos mude realmente aquilo que fazemos. É essa a convicção por trás dos nossos materiais, por trás de como fazemos o que fazemos, e por trás dos valores a partir dos quais trabalhamos.

Ver um animal como alguém não é um sentimento que tens por ele. É algo que reparas — e com que depois tens de viver.

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